NOS BRAÇOS DISSE: " Fala-nos dos filhos."
E ele falou:
"Vossos filhos não são vossos filhos.
São os filhos e as filhas da ânsia da vida por
si mesma.
Vêm através de vós, mas não de vós.
E embora vivam conosco, não nos pertencem.
Podeis outorgar-lhes vosso amor, mas não vossos
pensamentos.
Porque eles têm seus próprios pensamentos.
Podeis abrigar seus corpos, mas não suas almas;
Pois suas almas moram na mansão do amanhã.
Que vós não podeis visitar nem mesmo em sonho.
Podeis esforçar-vos por ser como eles, mas não
procureis fazê-los como vós.
Porque a vida não anda para trás e não se demora
com os dias passados.
Vós sois os arcos dos quais vossos filhos são
arremessados como flechas vivas.
O arqueiro mira o alvo na senda do infinito e vos
estica com toda a sua força.
Para que suas flechas se projetem, rápidas e para
longe.
Que vosso encurvamento na mão do arqueiro seja
vossa alegria.
Pois assim como ele ama a flecha que voa, ama
também o arco que permanece estável.
E alguém disse: "Fala-nos do Amor".
O AMOR...
"Quando o amor vos fizer sinal segui-o; ainda que os seus caminhos
sejam duros e difíceis. E quando as suas asas vos envolverem, entregai-vos; ainda que a espada escondida na sua plumagem vos possa ferir. E quando vos falar, acreditai nele; apesar de a sua voz poder quebrar os vossos sonhos como vento norte ao sacudir os jardins. Porque assim com o vosso amor vos engrandece, também deve crucíficar-vos. E assim como se eleva à vossa altura e acaricia os ramos mais frágeis que tremem o Sol, também penetrará até às raízes sacudindo o seu apego à Terra. Com o braçada de trigo vos leva. Malha-vos até ficardes nus. Passa-vos pelo crivo para vos livrar do joio. Mói-vos até à brancura. Amassa-vos até ficardes maleáveis. Então entrega-vos ao seu fogo, para poderdes ser o pão sagrado no festim de Deus. Tudo isso vos fará o amor, para poderdes conhecer os segredos do vosso coração, e por este conhecimento vos tomardes o coração da Vida. Mas, se no vosso medo, buscais apenas a paz do amor, o prazer do amor, então mais vale cobrir a nudez e sair do campo do amor, a caminho do mundo sem estações, onde podereis rir, mas nunca todos os vossos risos, e chorar, mas nunca todas as vossas lágrimas. O amor só dá de si mesmo, e só recebe de si mesmo. O amor não possui nem quer ser possuído. Porque o amor basta ao amor. E não penseis que podeis guiar o curso do amor, porque o amor, se vos escolher, marcará ele vosso curso. O amor tem outro desejo, senão consumar-se. Mas se amarem e tiverem desejos, deverão se estes; fundir-se e ser um regato corrente a cantar a sua melodia à noite.
Conhecer a dor da excessiva ternura. Ser ferido pela própria inteligência do amor, e sangrar de bom grado e alegremente.
Acordar de manhã com o coração cheio e agradecer outro dia de amor. Descansar ao meio dia e meditar no êxtase do amor. Voltar a casa ao crepúsculo e adormecer tendo no coração uma prece pelo bem amado, e na hora, um canto de louvor.
(Khalil Gibran)
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