sábado, 3 de julho de 2010

TER ESPIRITUALIDADE E SER ESPIRITUAL

              Todas as Igrejas, em geral, falam muito da Espiritualidade e todas as religiões oferecem a seus seguidores um itinerário de vida espiritual. Sendo, assim, bastaria apenas lembrar Buda, Confúcio, Moisés, Maomé, Jesus, para lembrar que há muitas Espiritualidades e muitos modos de ser espiritual, pensando, entendendo e vivendo a vida. Todos propõem o mesmo ideal: chegar a uma plenitude. Os caminhos, no entanto, são bastante diversos.

               Mas antes de olharmos para os livros, talvez seja útil à pessoa contemplar e entender seu próprio mistério ou complexidade, formada de corpo e espírito. Pesada por ser corpo e com raízes para não perder a identidade, ela é também leve e rica por ter espírito e asas para insuspeitados vôos, que a fazem sofrida e altaneira diante das pulsões instintivas do bicho que vive dentro dela.

               Um e outro, corpo e espírito, somos nós. Não somos só corpo nem só espírito. Somos os dois somados, interligados, interdependentes, fusionados e amalgamados, em permanente comunhão e conflito, no qual o corpo se faz sempre mais exigente e nunca satisfeito, e o espírito luta para não soçobrar no desafio de compor com o irmão corpo, sem desequilíbrios, esta difícil unidade.

                A espiritualidade tem tudo a ver com esta complexa convivência entre corpo e espírito que, quando não consegue ser integrada, nos torna complicados. A pessoa humana não é um corpo desespiritualizado nem um espírito desencarnado. O modo como trabalhamos esta dualidade, rica e trágica, complexa e difícil de ser integrada, é que, finalmente, definirá nossa espiritualidade.

                Ser simplesmente gente já é uma experiência espiritual. O nosso jeito humano, com corpo e alma, com matéria e espírito, com definições problemáticas e sentimentos desencontrados, com tempo que se esvai e eternidade que nos assusta. A espiritualidade, por isso, que tem no espírito seu princípio de qualificação, expressa-se eloquentemente no corpo, e somos espirituais na totalidade do nosso ser, por dentro e por fora, no corpo e no espírito, com um e outro.

                Quando se fala em espiritualidade pensa-se não raro em vida interior, localizada em algum ponto escondido do nosso corpo. A espiritualidade, como ideal de vida, no entanto, não se localiza geograficamente em nenhum lugar ou órgão do nosso ser. Não somos mais espirituais no coração ou na cabeça, nos rins, na boca ou nos olhos. A sede da espiritualidade não está, pois, num interior geográfico ou num fundo escondido do nosso ser físico.

                A força espiritual de uma pessoa se mede pelo grau de intensidade com que faz algo ou como vive os ideais e suas relações. Quanto mais a pessoa se entrega, de corpo e alma, a alguma coisa, ação ou pessoa, mais espiritual ela o é. É muito espiritual, por conseguinte, quem é muito intenso, e pouco espiritual quem é melancolicamente superficial.

               Alguém pode ser muito espiritual quando trabalha, faz esporte, convive em família ou vai a uma igreja. Pode também ser mínimamente espiritual quando reza, come ou faz amor. Bem entendido, um ato sexual pode ser mais espiritual do que a participação em uma procissão, quando o primeiro é feito com corpo e alma, e a segunda só com o corpo e sem alma. Que não haja dúvidas: a característica principal da espiritualidade é a intensidade com que se faz o bem, pouco importando que bem, materialmente, se faça. 

                A vida, em suas múltiplas facetas, será sempre a fonte primária para a espiritualidade. A inspiração poderá vir da paz e da alegria, da vida e da morte, do trabalho e da dor, das artes e dos esportes, da cidadania e do poder, do amor e do lazer, da terra, da natureza e de Deus.

                 Nas cores de um pintor se revela seu coração ou paixão, a beleza (ou não) admirável de sua espiritualidade. Além de muito ou pouco inspirado, ele pode usar cores abundantes e fortes, cores poucas e opacas, ou apenas uma cor, sem variações de tons, ou cores cinzentas ou vibrantes. O que ele pinta fala de seu mundo circunstante. Como ele pinta, de seu mundo interior e espiritual. A pessoa se derrama, espiritualmente, no que retrata com as cores de sua vida. Assim, podemos dizer, somos todos pintores espirituais da vida e pintamos o quadro que nossos olhos veem e que nosso interior é e esconde. 

                 Por sermos gente, todos somos espirituais, ou temos espiritualidade. Uns são mais, outros menos, uns de uma forma, outros de outra: mas espiritualidade todos têm porque todos são seres humanos. Na verdade, a experiência nos diz que uns são mais gente do que outros. É, pois, segundo este mais ou menos que somos mais ou menos espirituais.

                  Para ser profundamente espiritual não é preciso ser religioso. O bom seria que pessoas de confissão religiosa fossem também luminosamente espirituais, mas não é isso o que sempre se vê na prática. É bastante frequente a confusão que se faz entre Espiritualidade e Religião. Diz-se, por exemplo que determinada pessoa é muito espiritual porque tem muita religião. Pode ser um grande equívoco.

                   Dentro das Igrejas cultiva-se uma religião, que necessariamente não transforma pessoas religiosas em seres espirituais. Não será, por isso, injustiça afirmar que, nas Igrejas, temos pessoas com muita religião e pouca espiritualidade, e fora delas, pessoas sem nenhuma religião, mas com muita espiritualidade.

                    É lamentável que assim seja, embora isto não deva servir como condenação das Religiões, em si, mas como alerta para o fato de que as Religiões podem, lamentavelmente, acobertar nichos pouco louváveis e desenvolver comportamentos e definições pouco espirituais.


                      "Toda pessoa está animada por uma Espiritualidade ou por outra, porque todo ser
                             humano - cristão ou não, religioso ou não - é um ser também fundamentalmente
                                   espiritual. "

Nenhum comentário:

Postar um comentário